Crítica | O Principezinho

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De Mark Osborne vem a adaptação cinematográfica animada da obra-prima icónica de Antoine de Saint-Exupéry, O Principezinho. No centro de tudo está a menina, que está a ser preparada pela sua mãe para o mundo em que vivem, porém é interrompida pelo excêntrico vizinho, o Aviador. O Aviador apresenta à sua nova amiga um mundo extraordinário onde tudo é possível. É aqui que a jornada mágica e emocional da menina na sua própria imaginação começa.

A sinopse dá-nos o ponto de partida para esta fantástica adaptação de um livro que de certeza marcou profundamente todos os que já o leram. Lembro-me que o li pela primeira vez logo que aprendi a ler, um livro antigo quer era da minha mãe, e que tinha umas ilustrações que adorava. Na altura achei a história estranhíssima, porque claro que a interpretei apenas nos sentidos literais das coisas, mas como devorava todo o livro que me aparecesse à frente, li-o também até ao fim. Mesmo assim, apesar de não ter percebido o que a história tinha de especial, como adorava o livro em si, e como era da minha mãe, adorei automaticamente a história também.

A segunda vez que li o livro já devia ter os meus 20 anos, quando o reencontrei numa estante, e numa fase muito mais sensível pude ver com outros olhos sobre o que aquela “história estranhíssima” falava afinal. Desde aí ficou o meu livro favorito, porque posso ler romances complexos e biografias envolventes (e adoro os dois), mas a simplicidade com que esta história retrata sentimentos tão profundos fez com que tivesse expectativas altíssimas quanto a este filme, desde que ouvi falar nele pela primeira vez. Nota: apesar do cartaz do filme em Portugal conter apenas os atores que fizeram a dobragem para Português, eu vi o filme na sua versão original legendada.

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O filme junta, de forma muito inteligente, duas tecnologias distintas de animação, com funções diferentes: as cenas em 3D representam uma nova história, em que as aventuras vividas pelo Principezinho são contadas a uma pequena menina, que vive com a mãe, pelo seu vizinho aviador; já as cenas em stop-motion mostram a história do Principezinho, tão conhecida da cultura popular, num universo que parece feito de papel, e onde podemos ver várias situações e personagens da obra de Saint-Exupéry (como a serpente e a raposa, por exemplo).

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As duas narrações acontecem em simultâneo, e os mundos são perfeitamente distinguíveis. Confesso que estava à espera de uma animação mais “história de encantar”, “mundo de fantasia” brilhante e mágico como queriam parecer os primeiros cartazes (imagem acima). Talvez também, não fosse uma expectativa muito realista face ao mundo em que realmente a história do livro é passada, muito mais “nu e cru” e repleto de simplicidade. Por isso, o mundo “real” no filme deixou um bocadinho a desejar visualmente. Demasiado “normal” e vulgar como qualquer filme de animação deste tipo. Por outro lado, o mundo da história do livro foi tal e qual “nu e cru”, e – para mim – pareceu-me todo construído em papel e pasta de papel, por vezes papel amarrotado, como podem ver em baixo.

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O filme começa então, tal e qual como começa o livro, e com a voz de Jeff Bridges a narrar a criação do desenho da jibóia a digerir um elefante.

A partir daí, somos transportados para o mundo real, onde conhecemos a menina e a mãe, completamente obcecada com o futuro da filha. Primeiro numa entrevista para um colégio muito reputado, e depois da menina não ter sido selecionada para entrar, mudam de casa e é feito todo um planeamento, ao minuto, de todas as tarefas que a menina tem de fazer durante as férias do Verão até ao início das aulas: desde lanchar aos livros e problemas que tem de resolver. O mundo onde vivem é claramente um mundo de adultos, as casas do bairro todas iguais, com o mesmo tipo de arquitectura moderna e funcional, e as preocupações dos adultos centradas no trabalho e no dinheiro. No fundo, a cidade, a mãe e essa obsessão com o futuro caricaturaram a sociedade de hoje em dia de forma fria e pouco humanizada.

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Como a menina ficava sozinha em casa enquanto cumpria todo este calendário estilo regime militar, certo dia entra pela sua casa adentro uma avioneta, que destrói – como seria de imaginar – parte da casa, e a menina sai à rua para investigar a sua origem. É aí que, ao entrar para o quintal da casa vizinha, a única no bairro com um aspecto totalmente diferente, arquitetura mais antiga, cheia de caráter e um jardim colorido e animadíssimo, conhece o seu dono, um velhote Aviador, que dedica o seu tempo a reparar a tal avioneta que acidentalmente foi de encontro à casa de menina.

Deste encontro vai crescer uma enorme amizade entre as duas personagens, e ao mesmo tempo que a história dos dois se desenrola neste mundo, vamos conhecendo também a história do livro, quer através das cenas em stop-motion passadas no mundo do Principezinho, quer através das páginas escritas e ilustradas pelo aviador, que acabam, no final do filme, por ser reunidas num livro pela menina, e que o dá de presente ao autor.

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“O essencial é invisível aos olhos” – a frase mais célebre do livro, que é usada até hoje para ressaltar a importância dos sentimentos e do caráter no dia-a-dia, como não poderia deixar de ser, tem importância crucial no filme. A palavra “essencial” e a avaliação daquilo que é essencial é abordada e questionada repetidamente ao longo de todo o filme, pelas várias personagens.

Apesar da proposta maior deste novo trabalho do realizador Mark Osborne não ter sido propriamente reproduzir o livro escrito por Saint-Exupéry, mas sim captar sua essência, a verdade é que desde o início e até ao fim, vemos reproduzidos os momentos principais da história. Para mim foi um ponto positivo pois já não lia o livro há mais de 10 anos, e gostei de rever e encontrar ainda mais novos significados em que não tinha pensado antes. Para muitas pessoas, poderá tornar-se monótono, já que se considerarmos os 108 minutos de filme, estamos a falar de metade do tempo em que não há propriamente “novidades”.

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Sempre tive dúvidas que o livro d’O Principezinho fosse realmente uma história infantil, e as dúvidas permanecem com este filme. Eu própria não percebi o livro com os meus 7/8 anos e se calhar muitas crianças com essa idade nem o acabam de ler totalmente por essa mesma razão. Afinal, tudo tem impacto na nossa vida ou pela repetição com que acontece, ou pela intensidade das emoções que gera em nós. Não imagino muitas crianças com essa idade a irem ver o filme e ficarem excepcionalmente entusiasmadas ou mesmo interessadas no mesmo. A história da menina poderá ser compreensível no seu sentido “literal”, mas depois toda a história do Principezinho poderá não fazer sentido. Muito menos, quando ele aparece, adulto, na última parte do filme… Mesmo para mim, achei que a certa altura aquilo já era “demasiado” e precisava de fazer uma pausa e voltar à história mais tarde. Mas se calhar isso não abona muito sobre mim, não sei! Ainda assim, resisti estoicamente (haha) e gostei de ver o final.

As personagens ganham vida com um elenco de vozes estelar: Riley Osborne como o Principezinho, Paul Rudd como Senhor Príncipe (o Principezinho em adulto), Marion Cotillard como rosa, Rachel McAdams como a mãe da menina, James Franco como raposa, Jeff Bridges como o encantador aviador, Benicio del Toro como serpente, Ricky Gervais como o homem vaidoso (mas terrivelmente cómico), Paul Giamatti como professor, Albert Brooks como homem de negócios, Bud Cort como rei, e finalmente Mackenzie Foy como menina.

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O autor desta maravilhosa fábula sobre o amor e a solidão publicou pela primeira vez O Principezinho em 1943 quando recuperava de um acidente de guerra, e o livro transformou-se numa das obras mais amadas e admiradas dos nossos tempos. O filme propõe um outro olhar sobre o universo do Principezinho, que não fica apenas pelo que já conhecemos, e oferece-nos uma versão fílmica, mais moderna e abrangente, de um dos livros mais vendidos de sempre.

Já conhecias a história d’O Principezinho?