GHOST IN THE SHELL | Crítica

Se gostas de cenários futuristas deves imergir-te na experiência IMAX 3D.

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O futuro sempre foi uma fonte de inspiração para a 7.ª arte. Ainda este ano vamos poder assistir ao regresso de dois clássicos que são referências do género de ficção científica – Blade Runner 2049 e Alien: Covenant.

Ghost in the Shell – Agente do Futuro baseia-se no mangá The Ghost in the Shell, publicado pela primeira vez no final do década de ’80. O seu criador, Masamune Shirow decidiu contar a história da Major Motoko Kusanagi, líder de uma equipa especial que combate o crime no ano de 2029. Os terroristas do futuro não fazem apenas coisas explodir. Entram na mente das pessoas e fazem downloads. Imagina também tecnologia que os seres humanos literalmente transportam consigo, fazendo parte dos seus corpos. Mas já voltamos ao argumento do filme.

A ficção científica necessita do presente para se inspirar sobre o futuro. Nos anos ’70 ficou famosa a série Espaço 1999, onde a então recente viagem à lua inspirou os criadores da série a imaginar uma base lunar que após um acidente se vê afastada da órbita terrestre. Hoje em dia, e pela primeira vez na história da humanidade, a tecnologia passou a ser suficientemente portátil para a podermos transportar facilmente. Será que no futuro poderemos melhorar a nossa experiência como seres humanos ao incorporar tecnologia nos nossos corpos? A miopia passar a ser uma miragem e os olhos poderem incluir visão nocturna e raios-x? Membros que nos permitem ser mais fortes e resistentes do que alguma vez sonhámos? Implantes de memória que auxiliam o nosso cérebro a lembrar aquilo que não podemos esquecer?

Esta é a base do argumento de Ghost in the Shell – Agente do Futuro. Numa sociedade onde os chamados “melhoramentos” são o investimento para o qual os cidadãos poupam o seu dinheiro, a protagonista é uma espécie única, a primeira humana a quem um cérebro, a identidade, a alma se quiseres, é transplantada para um outro corpo. A explicação para esta operação vai buscar inspiração ao presente.

Durante o filme é levantada uma questão filosófica – será que o uso de tecnologia para melhorar as nossas capacidades vai permitir manter a nossa humanidade? O que faz de nós seres humanos? Num diálogo do filme há duas frases lapidares: “Nós somos aquilo que fazemos e não aquilo que pensamos. A nossa memória é apenas uma história que contamos interminavelmente a nós próprios.”.

O crime progride na medida em que a humanidade descobre novas tecnologias. Agora que vivemos na era digital devemos aceitar o cibercrime como uma realidade. Isso significa que é necessário haver agentes da autoridade responsáveis por monitorizar o ciberespaço. A Major Motoko Kusanagi é uma peça-chave neste combate. Mas será que ela está mesmo ao serviço da lei? Quando grandes empresas ganham poder quase absoluto e se deixa de distinguir a fronteira entre o que são interesses do Estado e interesses privados, coisas sinistras podem acontecer.

Sim, no futuro o poder e o dinheiro vão continuar a ser grandes afrodisíacos. O vilão do filme chama-se Cutter e é interpretado pelo actor Peter Ferdinando. É um homem frio e calculista, que não conhece limite para a sua sede de poder. A empresa que dirige, a Hanka Corporation é a grande impulsionadora dos avanços tecnológicos que permitem incorporar tecnologia no corpo humano. São também os responsáveis pela operação que permitiu criar a Major. Mas nem toda a gente está contente com o que parece ser um futuro risonho. Entra Kuze, meio ciborgue, meio hacker e que na primeira parte do filme lança sucessivos ataques aos interesses da Hanka Corporation. Qual o seu objectivo? Porque persegue os responsáveis pelo projecto científico por detrás do nascimento da Major Kusanagi? Este mistério é a melhor parte do argumento do filme e é pena descobrimos a sua solução tão cedo.

A escolha de Scarlett Johansson para protagonista de Ghost in the Shell – Agente do Futuro gerou abaixo-assinados na Internet, iniciativa de puristas, que afirmavam que o papel deveria ser atribuído a uma nipónica. Sejamos realistas, num elenco onde não há nomes sonantes tirando a francesa Juliette Binoche, será que as receitas seriam as mesmas se o filme se fizesse valer somente pelos seus efeitos especiais? Fica a pergunta.

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Controvérsias à parte, a actriz é uma escolha acertada para este papel. Não se espera de um filme como este uma interpretação nomeada para os Oscares. Johansson faz mais do que ser apenas uma actriz bonita e nota-se a sua experiência neste género de acção, ganha nos recentes Os Vingadores e Capitão América: O Soldado do Inverno. É eficaz quando faz cenas de acção e convence quando tem de exprimir sentimentos, como quando parte à descoberta do seu passado e da verdade por detrás da sua génese. Fica também uma referência positiva para Rupert Sanders, conhecido por A Branca de Neve e o Caçador e que tem aqui o filme mais importante da sua ainda curta carreira como realizador.

Para além de cenas de acção bem coreografadas, como um bailado colocado em câmara lenta, há uma visão credível do que pode ser uma grande cidade daqui a algumas décadas. Se gostas de cenários futuristas deves dirigir-te o mais brevemente possível a uma sala de cinema e imergir na experiência IMAX 3D. Não te vais arrepender. O que impede o filme de atingir a nota máxima ou ficar na história junto a títulos já referidos nesta crítica é a falta de um argumento mais convincente. A partir do meio do filme a história torna-se demasiado previsível e o que é previsível não é excitante. Depois da Major descobrir quem é Kuze e o que pretende, o que resta do filme é semelhante à sensação de estarmos a ver pela primeira vez um filme do qual já conhecemos o final.

Estás entusiasmado com a estreia de Ghost in the Shell – Agente do Futuro?