Sexta-Feira 13 e o Poder dos Slashers

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Hoje é Sexta-feira 13, por isso não há melhor altura para revisitar o famoso franchise de Sexta-Feira 13, pois não?

O filme original de 1980 foi uma típica história de sucesso Americana – um filme de horror de baixo orçamento que conseguiu sobreviver durante mais três décadas e gerou uma dezena de sequelas, cross-overs, bandas-desenhadas, livros, videojogos, merchandise, uma série de televisão, um reboot em 2009 e outro reboot para 2017, gerações que associam máscaras de hóquei mais com homicídios do que com o desporto, e gerou também a carreira de Kevin Bacon.

E também gerou um popular género conhecido como filmes slasher.

Os filmes de Sexta-Feira 13 já arrecadaram quase 700 milhões de dólares, tornando-se assim o franchise de filmes de terror mais lucrativo de sempre. Mas os críticos, no geral, só encontram más coisas para falar do género que geraram. Muitos desses filmes têm pouco para oferecer esteticamente, o que sugere que são atrativos para as audiências de outra forma – de facto, eles têm avisos escondidos sobre as fatais consequências de autoindulgência e autoabsorção.

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A ideia de que o franchise de Sexta-Feira 13 viria a usufruir de um tremendo sucesso não era evidente em 1980 – vindo depois do inovador e habilidoso Halloween de John Carpenter que estreara apenas dois anos antes, a versão do realizador Sean Cunningham de uma história semelhante passada num degradado campo de férias não era nem de perto nem de longe tão inteligente como o filme de Carpenter. Em vez disso, tinha um enredo simples, direto, e não muito imaginativo, e o mesmo acontecia com os seus efeitos visuais e a sua construção de cenas. Enquanto Carpenter conseguiu criar umas assustadoras surpresas em Halloween, Sexta-Feira 13 não se deu ao trabalho com tais subtilezas.

Contudo, o que Sexta-Feira 13 fez muito bem foi codificar a fórmula sugerida pelo filme de Carpenter, destilando-o até aos essenciais mínimos. A fórmula de filmes slasher é então bastante simples – segue as vidas banais de alguns adolescentes Americanos que adoram diversão e procuram prazer durante algumas cenas, e então começa-os a matar de formas que apanhem as vítimas e as audiências de surpresa; no fim deixa um dos adolescentes para confrontar o assassino, revela o motivo de vingança do assassino, e acaba o filme com uma reviravolta que prepara a sequela; e apesar de poucas pessoas no centro da história sobreviverem, o assassino normalmente salva-se. É só.

Mas há uma coisa que era novidade em Sexta-Feira 13 – durante os anos 70, o género de terror na América era dominado por filmes grindhouse como The Last House on the Left (1972) e Os Olhos da Montanha (1977) ambos de Wes Craven e Massacre no Texas de Tobe Hooper (1974), e Mulher Violada de Meir Zachi (1978), e em cada um desses filmes, as vítimas eram personagens bem estabelecidas e realistas antes de as mortes começarem. Como nos filmes Italianos giallo de Dario Argento – que influenciaram imenso os cineastas Americanos – o facto de as audiências se importarem com as vítimas – mesmo que só um bocadinho – dá poder ao filme.

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Sexta-Feira 13 mudou significativamente o género de terror ao remover qualquer hipótese da audiência se identificar ou sequer preocupar-se com as vítimas, para além dos sentimentos humanitários mais básicos – as vítimas são apresentadas como adolescentes Americanos genéricos, e não se sabe mais nada para além disso, nada de sonhos e aspirações, historial, nada. Então, no padrão narrativo estabelecido para os slashers, vê-se essas personagens a fazerem a sua vidinha enquanto se tenta adivinhar quando irão morrer. E à medida que as mortes ocorrem, a audiência não olha para as personagens com simpatia e muito menos assimila os seus fins como mortes de seres humanos verdadeiros – pelo contrário, o filme todo é uma apresentação estilizada de caos bem sangrento mas que ainda assim pouco afeta.

Sim, pode-se saber um pouco mais sobre o herói final, mas existe uma outra personagem cuja história pessoal e motivações são sempre exploradas em pormenor – o próprio assassino. Em Sexta-Feira 13 existe perto do final uma extensa cena de exposição na qual a razão das mortes do filme é explicada – em 1958, conta a assassina, a negligência de dois conselheiros do acampamento levou ao afogamento de um jovem rapaz chamado Jason Voorhees. «Os conselheiros não estavam a prestar atenção. Estavam a fazer amor enquanto aquele rapaz se afogava.» Claro, que os conselheiros do presente não têm qualquer responsabilidade sobre o que aconteceu mais de vinte anos antes, mas afinal, a assassina era maluca.

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Esta revelação é um ponto tão importante que variações do tema acabaram por ser repetidas inúmeras vezes em filmes de terror como O Pesadelo em Elm Street, Chucky, o Boneco Diabólico, Sei o que Fizeste no Verão Passado, Saw – Enigma Mortal, e até nas sequelas de Halloween – as mortes regularmente são motivadas por uma injustiça cometida contra o assassino ou alguém com quem o assassino se importa, por pessoas normais que não fizeram por mal. O género slasher então transmite a ideia de que o mundo está tão incontrolavelmente violento que a vingança é atirada não sobre aqueles que têm responsabilidade mas sobre inocentes. Mas é preciso notar que este género nasceu do caos moral dos anos 70 na América e no seu rescaldo, e estes filmes falavam diretamente sobre os medos do aumento da criminalidade e da deslocação social que o país estava a sofrer na altura – assim, proporcionavam também às audiências um escape desses medos e poderem conquistá-los ao rirem-se deles.

Infelizmente, os críticos contemporâneos não vêm esse efeito salutar, e atacam Sexta-Feira 13 e as suas muitas sequelas por serem irresponsáveis – por supostamente tornarem as audiências entorpecidas com a violência – e também por serem puritanos – por mostrarem mortes de adolescentes sexualmente ativos. Então, o consenso é que os filmes slasher encorajam os fãs a tirarem prazer da brutalidade, principalmente contra as mulheres. As acusações de sexismo não fazem muito sentido uma vez que tanto rapazes como homens também são mortos muito frequentemente nestes filmes.

Mas os críticos adoram ser liberais, e condenam estes filmes por serem púdicos, baseados na observação de que alguns homicídios ocorrem depois das personagem ter relações sexuais pré-nupciais. Muitos são contra esta alegada condenação de atividade sexual, incluindo o realizador John Carpenter de Halloween que comentou que estes adolescentes tornam-se vítimas não como castigo por terem sexo mas sim porque estão demasiado ocupados para repararem na presença de um assassino. Isto no franchise de Sexta-Feira 13 é bastante importante, uma vez que o que leva às mortes em todos os instantes é porque as personagens não prestaram atenção ao que se passava à sua volta, e o motivo é vingança por um instante fatal de indiferença.

A observação de Carpenter é realmente o coração do género slasher e o quão mal os críticos percebem o efeito destes filmes. Veja-se este exemplo – na sua crítica de Sexta-Feira 13 – Parte 2, o famoso crítico Roger Ebert do Chicago Sun-Times ficou completamente parvo quando observou vários jovens no cinema a demonstrarem nenhuma simpatia pelas vítimas:

Todos na audiência imitavam corujas e hienas. Outra rapariga [no filme] foi até ao seu quarto e começou-se a despir. Cinco rapazes sentados juntos [no cinema] começaram o cântico: ‘Nós queremos mamas!’

Embora não fosse de certeza o seu objetivo, a piada de Ebert realmente torna claro a indiferença em relação a outros que é o efeito central de um filme slasher, e o que estes filmes têm de tão engenhoso é que reforçam esse ponto ao forçarem as audiências a experimentar a própria coisa que motiva os homicídios – uma falta de compaixão. É óbvio então que os críticos que atacaram estes filmes como puritanos realmente não percebem o objetivo dos filmes, passou-lhes completamente ao lado. Os filmes slasher não enfiam pelas gargantas abaixo das audiências a sua piedade pessoal, mas sim mostram, de uma forma imaginativa e muito estilizada, as consequências destrutivas da autoindulgência e autoabsorção – e também demonstram que as pessoas sentadas a ver o filme podem ser tão indiferentes e insensíveis quanto as personagens.

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Mas é inteiramente possível que os fãs adolescentes que adoram estes filmes não percebem que estão a ser cúmplices nos males que os filmes mostram. E isso sim é o poder da pop culture – funciona em muitos níveis, mesmo sem as pessoas se aperceberem.

Por vezes até o mais humilde dos produtos culturais podem ter implicações poderosas e surpreendentes.

E não há nada de errado em torcer pelo assassino de vez em quando.

F13

Tenham uma boa Sexta-feira 13, mas se forem para um bosque ou andarem perto de algum lago, não se esqueçam de prestar atenção, não vá Jason Voorhees apanhar-vos.

CH-CH-CH, AH-AH-AH

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