UM LUGAR SILENCIOSO | Crítica

Prepara-te para te arrepiares.

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Quando vi pela primeira vez o título deste filme pensei: “porque que não Um Lugar Tranquilo?”. Depois de ver o filme percebi a razão – o silêncio é um dos protagonistas de Um Lugar Silencioso e tem uma palavra a dizer no destino de todas as personagens.

Não sabemos se a história se passa num futuro próximo ou no presente. Um Lugar Silencioso relata a luta pela sobrevivência da família Abbott – um casal e os seus três filhos – após o que rapidamente percebes ser uma situação catastrófica para a humanidade. Criaturas monstruosas passaram o homem no topo da cadeia alimentar e colocaram-no numa situação de presa constantemente em fuga. O que torna este filme especial é que estas criaturas caçam utilizando uma capacidade auditiva extremamente desenvolvida, que compensa o facto de serem cegas. Resumindo, se queres sobreviver, não podes fazer o mínimo barulho.

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Os membros da família andam descalços, falam em linguagem gestual, e têm um constante cuidado em não emitir o mais pequeno som. Podes imaginar o terror que esta situação só por si provoca. Deixar cair um prato no chão da cozinha pode significar o fim de tudo… e os monstros são muito, muito rápidos. Tenho que fazer uma viagem a 1979 e ao primeiro filme da saga Alien, realizado por Ridley Scott. Embora ainda sem os efeitos especiais que mais tarde tornaram os Xenomorfos mais realistas e menos mecânicos, esse primeiro filme é ainda hoje uma referência pelo seu suspense. Um Lugar Silencioso gere com mestria o suspense e as cenas em que, quando te sentes já parte daquela família, sofres cada vez que existe a possibilidade de haver um barulho, o que equivale a um massacre. Não há forma de lutar com as criaturas, não há forma de as vencer nem com tiros (o que iria atrair ainda mais), apenas podes estar em silêncio. Todo o filme é uma história sobre a capacidade humana de sobreviver em condições extremas.

Um dos monstros mais assustadores de sempre do cinema!

O facto da filha mais velha do casal ser surda dá ao filme uma ironia dramática. A família está habituada a utilizar linguagem gestual e fá-lo com todos os filhos, como forma de evitar a emissão de sons. Achei muito bem conseguida a passagem de cenas do ponto de vista de outros membros da família, em que ouves o som ambiente, para o de Regan, em que o som é cortado, e em que te colocas completamente no seu lugar. Mesmo quando à volta tudo se começa a desmoronar, o lugar em que ela se encontra é sempre silencioso, o que não significa tranquilo.

Tenho que deixar aqui uma referência extremamente positiva à equipa de efeitos especiais que construiu estas criaturas. Se por um lado existe a criatividade de quem criou um monstro que caça apenas através da audição e as possibilidades que esta situação cria no enredo do filme, o monstro em si é das coisas mais assustadoras que já vi no cinema. Não querendo entrar em descrições que irão inevitavelmente levar a spoilers, prepara-te para te arrepiares – este bicho não é coisa para crianças nem para adultos de coração mole. É rápido, emite sons aterradores, e o facto de não o veres durante a primeira parte do filme, deixa-te num estado de ansiedade que apenas é substituído por ataques de pânico.

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Há nos actores jovens uma prestação excelente para a exigência dos papéis. Em todos os actores está espelhado o medo no olhar, sem entrarmos no campo da histeria de gritos que se vê em alguns filmes de terror com adolescentes, que pode rapidamente transformar o filme numa espécie de comédia. Emily Blunt aparece transfigurada numa mãe de família gasta pelo stress diário da sua condição, mas mantendo uma capacidade de luta e vontade de protecção dos filhos. Um papel forte como elo de união entre a família e ponto de equilíbrio para a relação tensa entre o pai e a filha mais velha.

O realizador John Krasinski, que também é um dos actores principais no papel de Lee Abbott, o patriarca da família, construiu um filme de terror que também é um thriller de ficção científica e um drama, com cenas que mostram que o medo é tão poderoso como o amor quando está em jogo a sobrevivência. A não perder… se tiveres coragem.

Qual o teu monstro preferido do cinema?