“Old Wounds”

E cá estamos para a muito esperada série de Seth MacFarlane, The Orville, que se propõe a mostrar-nos uma série de comédia no espaço. Honestamente eu tenho grandes expectativas para esta série. Por um lado o Seth MacFarlane tem um tipo de comédia de que eu gosto muito, e é particularmente bom com sátiras e paródias (basta nos lembrar de Family Guy), e por outro lado sabemos que ele tem um grande interesse e apreciação por ciência e exploração espacial, tendo sido um dos produtores executivos de Cosmos (2014).

Tudo nesta série grita Star Trek desde o primeiro momento. A cidade extremamente avançada, tecnológica e bonita, as naves espaciais de linhas suaves e curvas, os uniformes que parecem pijamas, põem-nos claramente no mundo optimisticamente heróico de Star Trek (mesmo que isto não seja Star Trek). E é por isso que esta primeira cena do Capitão Ed Mercer a chegar a casa funciona tão bem. Ele chega a casa e encontra a mulher a trai-lo, na cama com outro homem. Não, correcção, com um alienígena! Adoro a piada ambiguamente ordinária do alienígena esporrar nhanha azul da testa quando o Ed Mercer entra no quarto; ficamos sem saber se é uma reacção de pânico, ou se ele estava a ter um orgasmo, mas é nojento e chocante de uma maneira que é exagerada exactamente por não sabermos precisamente o que aconteceu.

E esta é uma excelente maneira de começar esta série. Imediatamente o nosso protagonista não é um herói optimista e corajoso; The Orville não vai ser esse tipo de história. Vai ser a história de um gajo qualquer que foi traído pela mulher, teve um ano mau por causa disso, e agora esta a tentar recompor a sua vida. O diálogo dele inicial com o seu Almirante mostra-nos exactamente isso, e é um reflexo do medo constante de estarmos a falhar como adultos, e que outros adultos nos acusem disso com um tom reprovador e desapontado.

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O episódio mantém-se fiel aos tropes deste género de narrativa, com o Capitão Ed Mercer a ir recrutar algumas pessoas para a sua nova nave espacial, e o primeiro é o melhor-piloto-da-galáxia-que-tem-um-defeito-de-personalidade-que-faz-com-que-ninguém-queira-trabalhar-com-ele™. A subversão é engraçada porque ele é sobretudo um tipo extremamente irritante e infantil, em vez da personagem arrogante e demasiado confiante que carrega uma culpa pesada do costume. Recrutado o Tenente Gordon Malloy (Scott Grimes), ele e o Capitão Ed Mercer la vão ter à Orville. E a Orville (e todas as outras naves nesta série) tem um design lindíssimo. Gosto muito mais das linhas e aspecto desta nave espacial do que das naves de Star Trek, que se mantém fieis ao desenho original e que, apesar dos esforços de uma data de designers gráficos em modernizá-las, continuam a parecer um disco voador com dois charutos atrás.

A cena em que o Ed Mercer encontra a sua nova tripulação também é um trope típico, e que também é subvertido, sobretudo no que toca às personagens da Tenente Alara Kittan (Halston Sage) e do Tenente Bortus (Peter Macon). Ela e a versão feminina e pequenina do Tenente Worf, que em Star Trek era também o oficial de segurança, servindo assim como subversão da personagem grande, forte e masculina; ao passo que o Tenente Bortus, que tem o aspecto de um camião e fisicamente assemelha-se ao Tenente Worf, tem a atitude calma e lógica que esperaríamos do Spock. É uma inversão engraçada destes que têm potencial para ter muita piada e para continuar a subverter as expectativas que temos em relação a este género de personagens. O piloto John Lamarr (J. Lee) é, ele sim, o estereótipo do gajo arrogante e demasiado confiante, e a Dra. Claire Finn (Penny Johnson Jerald), que não tem nenhuma subversão na sua personagem sendo simplesmente a médica razoável e paternalista que esperaríamos.

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A primeira missão da Orville é levar mercadorias a uma estação espacial de investigação científica, e pelo caminho apanhar a 1ª oficial da Orville. Exactamente como esperaríamos, a primeira oficial é a ex-mulher do Capitão Ed Mercer, que o traiu no inicio do episódio. A Comandante Kelly Grayson, interpretada por Adrianne Palicki de Agents of S.H.I.E.L.D., serve de Lancer para o Leader que é o Ed Mercer (hei-de falar mais destes tropes em discussões futuras). É neste tipo de comédia que o Seth MacFarlane é bom. É muito divertido ver o resto da tripulação a conversarem sobre o capitão por detrás das costas dele, e a discutirem rumores e a tentarem adivinhar o que aconteceu. As interacções entre o Ed Mercer e a Kelly Grayson também estão muito bem escritas e divertidas, com o Ed Mercer persistentemente a trazer à tona o seu ressentimento contra ela.

A história progride bastante como esperaríamos, com a Orville a descobrir que a Estação Espacial na realidade não quer mercadorias, mas estava na realidade a chamá-los porque precisa de ajuda. Aparentemente, entre outras inovações científicas como sementes de árvores cruzadas com genes de tardigrado, eles descobriram como acelerar a passagem do tempo num campo limitado, e não só não querem que isso seja usado como arma, como estão preocupados que os Krill roubem a tecnologia.

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Mais uma vez, estes são os beats narrativos normais deste género de aventura, e The Orville parece estar a segui-los à risca. Os Krill parecem os Klingons desta série, incluíndo o facto de terem tecnologia de camuflagem na sua nave espacial, que lhes permite aparecerem subitamente ao pé da Orville e enviar soldados para a Estação Espacial. Na estação temos algumas cenas de acção que são competentes, mais algumas piadas engraçadas, sobretudo com a Alara que destrói uma porta blindada, e no espaço o Tenente Gordon está a exibir as suas habilidades de piloto fazendo uma orbita apertadíssima à volta da nave dos Krill.

Achei piada à resolução da história. Mais uma vez recorrendo ao trope de resolver os problemas através da inteligência e não da força bruta, a Grayson e o Mercer arranjam o plano de mandar a máquina que acelera o tempo com uma semente daquela super-árvore que tinha sido mencionada ao início para dentro da nave dos Krill, que depois explode com um pinheiro gigante a sair-lhe pelo cockpit. Tenho a dizer que EU percebi a piada do Arbor Day do Capitão Mercer, mas todo o segmento que se segue da tripulação a questionar a piada e a concordarem que a piada da Grayson era melhor está muito giro também.

Como seria absolutamente expectável, no fim o Capitão Mercer continua como Capitão da Orville, e acaba por pedir à Grayson que continue como primeiro oficial, apesar dos problemas conjugais que tiveram no passado. Na última cena descobrimos que foi ela que fez força para que lhe fosse oferecida a posição como capitão da Orville. Acho que esta foi uma revelação muito precoce. A relação e interacção deles precisava de ser mais desenvolvida ate descobrirmos isto, e agora não consigo deixar de ter isto em conta sempre que eles conversarem, e vou estar sempre à espera de quando é que ele vai descobrir.

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E é esse género de escrita, que não está necessariamente errada mas que também não ajuda nada ao enredo e à narrativa, que para mim limita muito esta série. O Seth MacFarlane obviamente está a investir imenso em The Orville, nota-se que há um verdadeiro amor e apreço por Star Trek na maneira como os seus tropes são parodiados, mas nesta situação esse amor e apreço vencem a paródia, e isso não é uma coisa boa. Porque se o Seth MacFarlane é um excelente comediante e escreve piadas muito muito bem, isso não faz dele necessariamente um bom escritor de aventuras (isso é o Dan Harmon). Este primeiro episódio tem sérios problemas de ritmo, é demasiado lento em vários momentos, há várias cenas que são apenas expositivas, não há assim muita tensão, e a aventura propriamente dita é tão clássica que sinto que já a vi uma dúzia de vezes no passado.

Agora, isto não é um problema em si mesmo, mas quando a parte da aventura, que é a mais fraquinha, toma precedência sobre a comédia, que é insuficiente, então ficamos com um episódio que não é realmente satisfatório em nenhum aspecto. É decente, e competente, mas não é particularmente entusiasmante. Fico particularmente desiludido no aspecto da comédia. Eu estava à espera de uma coisa com o ritmo e dinâmica de Family Guy, e honestamente se ele tivesse conseguido transplantar esse tom para este ambiente eu ficava perfeitamente satisfeito. Mas assim como esta é só fraquinho.

Mas, este foi só o primeiro episódio, que habitualmente tem de ser mais expositivo. Talvez os outros se apoiem mais na comédia, e estou muito curioso acerca de que outros tropes de aventuras espaciais vão ser subvertidos.

Querias mais piadas neste primeiro episodio?