The White Princess surge no seguimento de The White Queen, série produzida pela Starz e pela BBC em 2013. The White Queen foi recebida com algum cepticismo pelos críticos, mas de braços abertos pelos fãs. Segue uma linha ideológica muito rica na ficção dos últimos anos: é um drama histórico sensual e violento, e ao mesmo tempo tem traços do fantástico. A magia é um tema central em The White Queen, que acompanha e influencia a história do início ao fim, tendência que continua (se bem que sem a mesma força) em The White Princess.

No início desta nova série, e como disse na minha primeira discussão, não tinha visto The White Queen – mas agora já vi, e devo dizer que na minha opinião a sequela ultrapassou o original. É certo assumir que The White Princess iria ter um desafio muito grande à partida, fazendo a sequela a uma série muito amada com actores completamente diferentes. A sequela começa muito pouco tempo depois do fim da prequela, mas todos os actores mudaram, e algo assim poderia facilmente deixar as pessoas desiludidas. Apesar de nenhuma das duas terem sido séries com o número massivo de espectadores de outros fenómenos televisivos de hoje em dia, podemos afirmar que ambas se portaram muito bem junto dos espectadores que tiveram – e uma melhor do que a outra.

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The White Princess triunfou em muitos aspectos, se não em todos. Os cenários e o guarda-roupa são excepcionais, e mais do que isso: acompanham o crescimento e amadurecimento das personagens. É muito fácil perdermo-nos nesta série, um efeito que seria irremediavelmente quebrado por um ambiente menos envolvente. Mas, para mim, houve dois elementos desta série que a tornaram numa obra excelente: o elenco, e o desenvolvimento das personagens.

Todo o elenco é óptimo; pondo de lado tudo o que vimos e conhecemos em The White Queen, The White Princess entrega-nos um mundo credível e completo, que seria impossível sem a interpretação de Jodie Comer. Esta actriz foi fantástica; tem a capacidade de demonstrar emoções profundas e complexas sem exagerar o seu desempenho, o que não é fácil tendo em conta as circunstâncias nas quais a nossa Princesa Elizabeth tem que viver. Jacob Collins-Levy também brilhou imenso, especialmente nos últimos três episódios, em que a metamorfose da sua personagem, o Rei Henry, é mais notável. Outros desempenhos extraordinários incluem, obviamente, o de Michelle Fairley (a nossa adorada Catelyn d’A Guerra dos Tronos), a malévola e manipulativa mãe do Rei, e, mais recentemente, o de Patrick Gibson.

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Se vais começar a ver a série, não te vou fazer spoilers ao dizer quem é a personagem interpretada por Patrick Gibson, mas digo-te apenas isto: não vais saber em que acreditar quando o conheceres, porque vai parecer demasiado bom para ser verdade! Na realidade não houve nenhum desempenho que eu pudesse caracterizar como mau, mas houve dois que me pareceram um pouco mais fracos do que a média tão alta imposta por esta série: o de Rebecca Benson, a prima Maggie, e o de Essie Davies, a mãe da Rainha, que não me convenceu realmente quer da sua devoção quer da sua loucura.

E, como disse, não posso deixar passar a oportunidade de falar sobre o desenvolvimento das personagens que vimos ao longo da série. Uma das coisas que mais me irrita numa série é quando as personagens não seguem uma linha lógica – as suas acções são erráticas e servem os propósitos dos criadores da série, que querem levar a história à força ora para aqui ora para ali; não se encaixam verdadeiramente na personalidade daquela personagem. The White Princess é uma grande lufada de ar fresco neste sentido.

As acções das personagens nos últimos dois episódios seriam impensáveis nos primeiros dois episódios, mas a sua evolução é tão lógica, tão evidente, tão inevitável, que não temos o menor problema em acreditar no que está a acontecer no final (apesar de não querermos acreditar!). Os maiores exemplos desta evolução natural são, claro, a Lizzie, o Rei Henry e a Maggie. As pessoas que eles eram no início simplesmente já não existem no final. Há outras personagens que se mantêm inalteradas nas suas acções e convicções, mas nas quais isso faz todo o sentido, devido às suas características fundamentais: Lady Margaret, e Richard, por exemplo. Como é que eles conseguiram tudo isto em apenas oito episódios? Não faço a mínima ideia.

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A veracidade histórica da série tem por vezes sido questionada, e o facto é que a série não é estritamente histórica. Por amor de Deus – a Rainha faz magia, ok? Mas, muito para além disso, o facto de a série se focar maioritariamente em personagens femininas e nas suas vidas pessoais e privadas faz com que a veracidade histórica nunca pudesse ser total, porque simplesmente não existem suficientes relatos fidedignos das vidas das mulheres no século XV. Elas não eram importantes, e como tal, não nos chegam as suas histórias, as suas palavras. Todas as séries históricas que se quiserem focar em mulheres (como a maior parte delas faz hoje em dia) têm que inventar um pouco. Mas os factos históricos estão todos lá.

Depois de todos estes elogios, chegas ao fundo da página e perguntas-te porque é que não dei a pontuação máxima a esta mini-série. Mas aí tens a resposta: é uma mini-série. É uma obra demasiado pequena para ter tido tempo de aprofundar todos os seus enormes temas subjacentes; se tivéssemos uma escala de 0 a 5 apenas para mini-séries, poderia dar-lhe um 5, mas como penso numa obra no contexto daquilo que significou para mim, do impacto que teve, das saudades que deixa… Não posso dizer que tenha sido a maior experiência televisiva da minha vida; faltou-lhe um toque de grandiosidade. Mesmo assim, tenho que dizer a ti que estás a ler isto e se gostas de ficção histórica: recomendo a série, recomendo The White Queen também, e espero que venham a haver mais sequelas!

O que achaste deste novo drama histórico da Starz?